domingo, 25 de novembro de 2007

Euclides me persegue

Tudo começou um bom punhado de anos atrás, quando o livro de memórias do jornalista Samuel Wainer, Minha Razão de Viver, me contou que o escritor Euclides da Cunha havia sido morador do bairro da Piedade. "Piedade", pensei, "aqui tão pertinho...", e corri até o meu exemplar de Os Sertões na expectativa de encontrar alguma informação mais específica, descobrir detalhes. Folheei uma meia dúzia de páginas introdutórias e lá estava, textualmente: "No mesmo ano, a 15 de agosto, sucumbia de modo trágico em sua própria residência, na estrada Real de Santa Cruz, no bairro da Piedade (...)". A confirmação acompanhada do dado extra, no entanto, fermentou minha curiosidade, porque, até então, nunca tinha ouvido falar na tal estrada Real de Santa Cruz. Consultei o mapa de uma lista telefônica antiga que tinha mais ou menos à mão e nada, nenhuma pista. Consultei também pessoas daqui, mas ninguém sabia me dizer o atual nome da estrada nem o que fazer para localizar o último endereço do escritor. O tempo foi seguindo seu fluxo e desbotou a vontade de descobrir se a antiga casa de Euclides da Cunha ainda existia, se era habitada e por quem, até que num dia recente, quando nem pensava mais no assunto, parte da resposta surgiu bem na minha frente. A estrada Real de Santa Cruz recebeu o nome de avenida Suburbana no mandato do prefeito Amaro Cavalcanti e hoje é a avenida Dom Helder Câmara. Euclides da Cunha foi morto no número 214, não sei se ainda está lá. Coincidentemente, dias depois, na última quinta-feira, mais especificamente, quando passeava na livraria, topei com o recém-lançado Crônica de uma Tragédia Inesquecível, livro que traz os autos do processo de Dilermando de Assis, assassino do autor de Os Sertões.

Euclides da Cunha foi morto em 1909, época em que a estrada Real de Santa Cruz era um dos pontos mais desenvolvidos do bairro. O crime passional, que teve como pivô a mulher do escritor, Ana Emilia Solon Ribeiro, ficou conhecido como Tragédia da Piedade e foi cercado de bastante polêmica. Uma das versões dá conta de que em uma crise de ciúmes, o autor de Os Sertões, que não ignorava a relação extraconjugal da mulher com Dilermando de Assis, teria invadido a casa do rival - para onde Ana havia ido com os dois filhos -, em 15 de agosto daquele ano, um domingo, disposto a "matar ou morrer". Euclides estava armado e disparou tiros que atingiram tanto o amante da mulher como o irmão dele, Dinorah, que tentava ajudar o rapaz. Então cadete do Exército e com 17 anos, Dilermando era um exímio atirador e, mesmo ferido, acertou com um tiro a testa do escritor, matando Euclides da Cunha, aos 43 anos de idade.

Dilermando de Assis foi absolvido duas vezes por legítima defesa. Apesar disso, a tragédia sempre o perseguiria como um fantasma. Euclides da Cunha era um escritor consagrado quando foi morto pelo militar e conta-se que toda a história foi bastante manipulada, assim como a opinião pública. Os jornais da época pediam a cabeça do cadete e o inquérito policial referia-se a Euclides como "saudoso escritor". A morte de Euclides da Cunha e as circunstâncias em que o crime ocorreu foram tão cheias de intriga e fatos controversos que renderiam um livro de ficção.

Para completar, seis anos mais tarde, a história se repetiria. Em uma tentativa de vingar o pai, Euclides da Cunha Filho foi morto em uma troca de tiros com Dilermando. Cerca de 40 anos depois de ter matado o escritor, Dilermando de Assis, já general do Exército, procurou o jornalista Samuel Wainer para solicitar uma entrevista em que pudesse contar a sua versão dos fatos e, segundo ele, reparar a injustiça de que era vítima desde aquele longínquo domingo, no ano de 1909.

Infelizmente, o assassinato de Euclides da Cunha não foi o único fato histórico tenso envolvendo nomes conhecidos a ocorrer aqui na região do Grande Méier. Na manhã do dia 5 de março de 1936, uma quinta-feira, o político e líder comunista Luiz Carlos Prestes e sua mulher, Olga Benário, foram presos no número 279 da rua Honório. Mas essa já é uma outra história.

6 comentários:

Sonia disse...

O que vou perguntar nada tem a ver com Euclides da Cunha. Pesquisei muito sobre a Real Fazenda de Santa Cruz quando estava escrevendo meu Leopoldina e Pedro I. Com a mania nacional de mudar os nomes dos logradouros sempre fiquei me perguntando onde ficava exatamente a fazenda. Por acaso era no atual bairro da Piedade? Ou Piedade era apenas no caminho para lá? Se você lê um antigo romance inglês pode identificar cada bairro, cada rua.

Rê disse...

Sonia, vou responder no seu blog.

Sonia disse...

Rê, não deixarei de passar por aqui. Quem também lhe fez uma visita (no post anterior) foi a Bia, namorada do meu filho.

Rê disse...

Sonia, obrigada pelas visitas. Por favor, não deixe de avisar quando criar seu novo blog. Eu tinha percebido pelos comentários anteriores que você indicou o blog para a Bia. Obrigada. =)

Scheila das graças moreira pinto disse...

Renata,

Achei que vc gostaria de saber mais algumas curiosidades que envolvem o bairro Meier com o caso de Euclides da Cunha. No lugar do numero 214 da antiga Estr. Real de Santa Cruz (depois Av Suburbana e atual Av Dom Helder Camara)fica o supermercado Guanabara. Outra curiosidade é que Ana, viuva de Euclides, depois de cadasa com Dilermando de Assis e qunado retorna do Sul (onde lá vive por anos) veio morar na Rua Dias da Cruz, 323, onde, se não me engano, fica atualmente uma clinica médica. Acredito que a construção deva ter sofrido reformas, mas o terreno é exatamente o mesmo. Neste endereço Ana de Assis vive com Dilermando os ultimos dias felizes de casamento, até que descobre que o marido a trai se encontrando coma amante em uma rua do Encantado.

Scheila das graças moreira pinto disse...

Sonia,

A Fazenda Real de Santa Cruz era dos Jesuítas e ficava no bairro de Santa Cruz. A estrada unia o bairro de S. Cristovão até Minas Gerais por onde era escoado o ouro até o cais do Porto do RJ. A estrada mudou de nome em vários trechos.