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terça-feira, 15 de julho de 2008

Desejo

Se hoje estivesse chovendo e fosse feriado, eu acordaria sem pressa de espantar a preguiça. Esfregaria os olhos e ficaria ainda um pouco mais debaixo das cobertas, prestando atenção ao quase silêncio, quebrado pelos ônibus e pelas primeiras vozes que passam. Vestiria meu roupão atoalhado, correria os passos que separam a cama do janelão do quarto e afastaria um pouco a cortina, para ver a intensidade da chuva, que seria fraca, porque chuva forte mais assusta do que acolhe. Voltaria até a beira da cama e calçaria as pantufas, antes de ir até a cozinha para colocar a chaleira no fogo. Enquanto esperasse a água ferver, entraria na biblioteca e escolheria algo para começar a ler. Preparado o chá, o beberia de pé, devagar, olhando através da bay window o quintal molhado. Depois do desjejum, me acomodaria na poltrona, com os pés em cima do banquinho, e viajaria para um mundo criado ou recriado.

Mas hoje não está chovendo e é preciso trabalhar.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Helena e família

Sempre que vejo Helena – e eu a vejo com freqüência –, ela está vestida da mesma maneira. Helena é uma mulher de estilo discreto, não necessariamente harmônico, que a faz optar por duas peças de tecidos leves, geralmente uma blusa de mangas curtas e uma saia cujo comprimento pode variar entre a altura dos joelhos e a metade das batatas das pernas. Nunca a vi usar saltos. Os cabelos, ressecados e avermelhados, quando não leva espalhados pelos ombros, estão amarrados em um coque displicente.

Helena costuma passar diante da minha casa em manhãs sem ou de pouca chuva, a caminho da parte comercial do bairro. Assim que me vê, me cumprimenta com um sorriso, ajeitando os óculos e estalando um beijo no ar. Nos dias em que estou com minha caneca de café, a convido para se juntar a mim, mas ela só aceitou um par de vezes. Quando eu era criança, costumava encontrá-la levando os três filhos para a escola, a mesma que eu freqüentava. Deve ter sido por conta dessas saídas no mesmo horário que a mulher pequena e magra foi uma das primeiras vizinhas aqui da rua que minha mãe conheceu e de quem ficou amiga.

Há 36 anos, mesmo tempo que tem de casada, Helena mora no duplex do menor edifício da rua, levantado acima de uma loja, separada em duas, anos atrás. Na época em que os filhos, dois meninos e uma menina, se aproximavam da adolescência, Helena fez planos de, no futuro, deixar o duplex para dois deles e convencer o marido a fazer uma oferta ao proprietário do apartamento de baixo. Assim, o apartamento no primeiro andar poderia ficar para o filho que se casasse antes dos irmãos. Os outros dois, quando chegasse a hora, estariam livres para repartir o duplex da maneira que melhor lhes conviesse. Permanecendo próxima aos filhos, Helena poderia então tomar conta dos netos que, com certeza, viriam. Ela adora crianças, sempre gostou de casa cheia.

E tudo isso passou por sua cabeça não tem um minuto, assim que o carteiro lhe entregou a correspondência e ela identificou entre os envelopes um com a letra do filho que se mudou para a Europa.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Pela janela

É a última meia hora da tarde de uma sexta-feira. Emoldurada pela janela com cortinas entreabertas, uma mulher faz anotações numa caderneta com o ar de quem espera o marido chegar do trabalho. A janela fica no segundo ou terceiro andar de um edifício, não tenho certeza, e a mulher, uma senhora, veste vermelho e tem os cabelos curtos e claros. Louros, talvez. Não há problema em chamá-la de Dalva.

De tempos em tempos, dona Dalva desvia os olhos da folha e se debruça em direção à rua, atraída pelo burburinho que efervesce lá embaixo, certamente lembrando de quando ainda havia capinzal onde hoje as pessoas caminham, se apressam, compram, dirigem, se encontram. Às vezes, dona Dalva deixa a janela por alguns instantes e some dentro do apartamento, para reaparecer em seguida. Ela é uma senhora de alma tranqüila, resignada, discreta. O marido, aposentado, continua trabalhando. Até alguns anos atrás, ela até preferia assim, mas com os netos crescidos e ganhando o mundo, o dia alongou para dona Dalva. Desde que os filhos nasceram, a boa senhora se acostumou a dedicar seus cuidados a alguém que não fosse ela. Já pensou se a neta, na véspera de viajar, não lhe tivesse levado o casal de calopsitas com o pedido de que, por favor, olhasse pelos pássaros durante os dois anos que passaria estudando na Espanha? Não fosse isso, dona Dalva contaria apenas com a companhia de Patrick, o basset que o filho do meio deixou com ela ao se mudar para a Barra.

Quando dona Dalva acorda, na maioria das vezes, o marido já saiu para o trabalho. Na cozinha ainda sonolenta, ela toma o café da manhã enquanto conversa com o casal de calopsitas, que mora na área de serviço. Dona Dalva nunca lembra se é o macho ou a fêmea que se chama Gota de Leite, mas eles não parecem se importar. Enfim, um deles tem esse nome, o outro é Bola de Neve e os dois ganham bocadinhos do pão que a senhora todos os dias compra na padaria que fica na esquina da Dias da Cruz com Dona Claudina.

O apartamento onde dona Dalva e o marido moram é amplo e claro, desses de prédio antigo que já não se ergue mais, depois que as construtoras passaram a economizar no metro quadrado. Como os netos assumiram o próprio nariz, a senhora tem conseguido cuidar melhor da casa, conforme aprendeu que deveria. Na semana passada, começou a se ocupar da decoração para o Natal, pareceu-lhe boa idéia renovar os enfeites, comprar uma árvore mais moderna e uma guirlanda nova para a porta principal, o marido sempre apreciou tanto as festas de fim de ano. Também tomaria as medidas da janela da sala para ali colocar pisca-piscas coloridos. Faria tudo sozinha, porque assim seria melhor, e observada de perto por Patrick, mais apegado a ela do que sua própria sombra.

Mesmo o apartamento sendo grande e dona Dalva já contando uma certa idade, ela continua a cuidar de tudo sem a ajuda de ninguém. Não quer nem ouvir falar em empregada, para que, se está mais do que acostumada à rotina da casa e ninguém a cumpriria melhor do que ela? Depois de tirar a mesa do café e lavar a louça, varre o chão e espana o pó dos móveis. Em seguida, cuida da roupa suja, já estendida na corda antes de preparar o almoço, que cozinha em quantidade a render para o jantar. À tarde, passa roupa assistindo à reprise da novela. O banheiro, limpa três vezes por semana e os vidros, uma. Isso tudo sem esquecer de cuidar de Patrick, que passeia de manhã cedo e à tardinha, Gota de Leite e Bola de Neve. Ainda sobra tempo para dona Dalva tomar um bom banho, vestir uma roupa limpa, tirar os rolinhos do cabelo, se perfumar e no fim da tarde ir à janela esperar o marido, como sempre gostou de fazer. Neste momento, ela está anotando mais alguma coisa na caderneta.